{"id":116933,"date":"2025-09-04T12:14:14","date_gmt":"2025-09-04T15:14:14","guid":{"rendered":"https:\/\/cbl.org.br\/?p=116933"},"modified":"2025-09-04T12:14:14","modified_gmt":"2025-09-04T15:14:14","slug":"jose-de-souza-martins-encontra-ugo-giorgetti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cbltestlnx.azurewebsites.net\/es\/2025\/09\/jose-de-souza-martins-encontra-ugo-giorgetti\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 de Souza Martins encontra Ugo Giorgetti"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Liniane Haag Brum*<\/em><\/p>\n<p>O \u201craro espet\u00e1culo de um homem pensando\u201d. \u00c9 assim que o cineasta Ugo Giorgetti define a aula de hist\u00f3ria pol\u00edtica e social do Brasil ministrada pelo professor Jos\u00e9 de Souza Martins no Cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o, em 2011, e transformada por ele em uma s\u00e9rie de cinco epis\u00f3dios. Com produ\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o Social do Com\u00e9rcio de S\u00e3o Paulo, o Sesc, os registros que originaram \u201cVest\u00edgios da Eternidade\u201d foram feitos pela documentarista Paola Prestes, que trabalhou com Giorgetti. A s\u00e9rie est\u00e1 dispon\u00edvel na plataforma do canal SescTV desde agosto de 2024.<\/p>\n<p>O encontro entre o intelectual e o artista n\u00e3o aconteceu por acaso. Ugo Giorgetti conta que costumava ler a coluna quinzenal de Jos\u00e9 de Souza Martins, no Estad\u00e3o. O soci\u00f3logo, por sua vez, assistiu ao document\u00e1rio \u201cPizza\u201d (2007) e ficou impressionado. O filme, uma coprodu\u00e7\u00e3o entre a produtora de Giorgetti e a TV Cultura de S\u00e3o Paulo, aborda os paradoxos da capital paulista atrav\u00e9s de um mapeamento de pizzarias de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O primeiro contato pessoal entre eles aconteceu porque o Professor Em\u00e9rito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP bateu \u2013 literalmente - \u00e0 porta da produtora de Giorgetti, querendo conhecer o diretor de \u201cPizza\u201d. A partir de ent\u00e3o, o cineasta passou a frequentar algumas aulas do professor Souza Martins na Universidade de S\u00e3o Paulo. At\u00e9 que um dia o soci\u00f3logo anunciou: \u201cAmanh\u00e3 a aula \u00e9 no Cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o\u201d. Foi assim que a s\u00e9rie documental come\u00e7ou a ser produzida.<\/p>\n<p>\u201cVest\u00edgios da Eternidade\u201d, a exemplo de outras pe\u00e7as documentais dirigidas por Ugo Giorgetti, \u00e9 s\u00f3bria no que diz respeito aos procedimentos de linguagem. Uma das marcas estil\u00edsticas est\u00e1 na interfer\u00eancia do diretor a cada abertura de epis\u00f3dio. Todos os cap\u00edtulos se iniciam com o cineasta comentando o que o espectador ir\u00e1 encontrar a seguir. Essas falas s\u00e3o breves e informativas, mas tamb\u00e9m subjetivas, uma vez que refletem a opini\u00e3o de Giorgetti e n\u00e3o escondem os seus titubeios durante a grava\u00e7\u00e3o. O cineasta n\u00e3o aspira a ser um comentador neutro, ele \u00e9 o artista Ugo Giorgetti que articula suas ideias ao pensamento do \u201cseu personagem\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos primeiros segundos, o professor Souza Martins adverte: \u201cOlha, n\u00e3o \u00e9 necroturismo, \u00e9 uma tentativa de usar o cemit\u00e9rio como um documento de hist\u00f3ria social e pol\u00edtica, e aprender a explorar informativamente e interpretativamente o que o cemit\u00e9rio tem a dizer\u201d.<\/p>\n<p>Da Biblioteca M\u00e1rio de Andrade, onde o jovem oper\u00e1rio Jos\u00e9 tomou contato com os livros pela primeira vez, ao intelectual de primeira grandeza a quem foi outorgada a honraria de Personalidade Acad\u00eamica 2025 do Pr\u00eamio Jabuti, a verve etnogr\u00e1fica e interdisciplinar sempre esteve presente e ajudou a consolidar estudo, pesquisa e doc\u00eancia: \u201cCemit\u00e9rios podem ser visitados como se a gente estivesse numa biblioteca lendo um livro. Cada t\u00famulo desses \u00e9 uma p\u00e1gina desse livro\u201d, ensina o acad\u00eamico Souza Martins, em \u201cVest\u00edgios da Eternidade\u201d.<\/p>\n<p>Quem conhece a obra do professor, ou frequentou suas disciplinas na Universidade de S\u00e3o Paulo, talvez perceba que a atitude de ministrar uma aula em um cemit\u00e9rio n\u00e3o esteja longe dos procedimentos explorat\u00f3rios que utilizou ainda no in\u00edcio da carreira acad\u00eamica, quando foi integrado ao estudo \u201cA qualifica\u00e7\u00e3o do oper\u00e1rio na empresa industrial\u201d, liderado pelo professor Luiz Pereira, a convite de Fernando Henrique Cardoso. Na ocasi\u00e3o, lhe coube o levantamento de processos nas f\u00e1bricas, a intera\u00e7\u00e3o com os oper\u00e1rios e as entrevistas, ou seja, uma abordagem de campo que, posteriormente, ajudou a forjar a sua pr\u00f3pria metodologia de ensino e pesquisa.<\/p>\n<p>Com o distanciamento que s\u00f3 a passagem do tempo proporciona, foi em 2022 que Ugo Giorgetti retomou a aula de 2011 ministrada no Cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o. O trabalho de concep\u00e7\u00e3o e roteiriza\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie separou o material gravado por epis\u00f3dios que n\u00e3o possuem t\u00edtulos. O primeiro trata da participa\u00e7\u00e3o dos padres Idelfonso Xavier Ferreira e Amaral Gurgel no processo de independ\u00eancia do Brasil. O segundo examina o t\u00famulo da Marquesa de Santos e faz uma reflex\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o da mulher no s\u00e9culo XIX. O terceiro cap\u00edtulo destaca dois personagens ligados \u00e0 hist\u00f3ria da escravid\u00e3o: Luiz Gama e Ant\u00f4nio da Silva Prado e, sucessivamente, h\u00e1 o bloco que descreve a elite intelectual brasileira, com foco em Eduardo Prado e Caio Prado J\u00fanior. O quinto e \u00faltimo epis\u00f3dio \u00e9 \u201conde se entrecruzam duas biografias inteiramente inconcili\u00e1veis, ou aparentemente inconcili\u00e1veis, a do professor, cientista, empreendedor e industrial Roberto Simonsen e a do professor em\u00e9rito e escritor Jos\u00e9 de Souza Martins\u201d, comunica Giorgetti ao espectador.<\/p>\n<p>Em uma passagem em que se sobressai o esfor\u00e7o de conter a emo\u00e7\u00e3o, o professor Jos\u00e9 de Souza Martins revela, em frente ao Jazigo da fam\u00edlia Simonsen que, ainda menor de idade, fora funcion\u00e1rio da Cer\u00e2mica S\u00e3o Caetano, do Grupo Simonsen. Foi assim que conseguiu ingressar no ensino formal: \u201cEles pagavam o curso. Minha m\u00e3e nunca teve escolaridade, meu padrasto era analfabeto. Ent\u00e3o eles n\u00e3o sabiam nem o que era estudar. Quem via minhas notas, minha caderneta, era uma funcion\u00e1ria da f\u00e1brica designada pra isso, tinha v\u00e1rios moleques l\u00e1 que estudavam\u201d.<\/p>\n<p>Os cinco epis\u00f3dios seguem a cronologia da aula original, ou seja, a s\u00e9rie n\u00e3o opera invers\u00f5es, nem interrup\u00e7\u00f5es abruptas no discurso do professor.<br \/>\n\u201cVest\u00edgios da Eternidade\u201d \u00e9 um document\u00e1rio que convida \u00e0 entrada na obra de Jos\u00e9 de Souza Martins, tanto quanto na l\u00f3gica criativa de Ugo Giorgetti. Essa talvez seja uma s\u00e9rie para quem encontra no pensar, um modo de divers\u00e3o. Ou para quem v\u00ea no encontro de sensibilidades motivos para, indistintamente, aprender e se emocionar.<\/p>\n<p>* Doutora em Teoria e Cr\u00edtica Liter\u00e1ria (Unicamp), \u00e9 pesquisadora associada do Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo, da Unicamp, onde desenvolve o projeto de divulga\u00e7\u00e3o da pesquisa \u201cContra o apagamento \u2013 o cinema de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o de Ugo Giorgetti\u201d, financiado pela FAPESP. \u00c9 escritora, jornalista e docente.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Liniane Haag Brum* O \u201craro espet\u00e1culo de um homem pensando\u201d. \u00c9 assim que o cineasta Ugo Giorgetti define a aula de hist\u00f3ria pol\u00edtica e social do Brasil ministrada pelo professor Jos\u00e9 de Souza Martins no Cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o, em 2011, e transformada por ele em uma s\u00e9rie de cinco epis\u00f3dios. 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