{"id":126814,"date":"2026-04-02T11:51:53","date_gmt":"2026-04-02T14:51:53","guid":{"rendered":"https:\/\/cbl.org.br\/?p=126814"},"modified":"2026-04-02T11:51:53","modified_gmt":"2026-04-02T14:51:53","slug":"o-pais-que-comeca-nos-livros-infantis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cbltestlnx.azurewebsites.net\/en\/2026\/04\/o-pais-que-comeca-nos-livros-infantis\/","title":{"rendered":"O pa\u00eds que come\u00e7a nos livros infantis"},"content":{"rendered":"<p>Por Sevani Matos e Hubert Alqu\u00e9res<\/p>\n<p>O encontro inicial com os livros \u00e9 um dos momentos mais decisivos na forma\u00e7\u00e3o de qualquer leitor, mas no Brasil ainda est\u00e1 longe de ser uma realidade universal.<\/p>\n<p>\u00c9 na inf\u00e2ncia que se descobrem hist\u00f3rias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. Antes mesmo de compreender plenamente a linguagem, a crian\u00e7a intui que ali existe algo maior: uma possibilidade de imaginar, explorar e dar sentido ao que a cerca, muitas vezes por meio das imagens, que inauguram esse encontro com a mesma pot\u00eancia das palavras.<\/p>\n<p>A literatura infantil n\u00e3o \u00e9 apenas uma etapa na forma\u00e7\u00e3o do leitor. Ela constitui uma base essencial da forma\u00e7\u00e3o cultural, cognitiva e criativa. \u00c9 nesse momento que se desenvolvem habilidades decisivas, como a linguagem, a imagina\u00e7\u00e3o e a capacidade de atribuir sentido \u00e0 experi\u00eancia. Mais do que introduzir a leitura, ela estabelece fundamentos que acompanham o indiv\u00edduo ao longo de toda a vida.<\/p>\n<p>No Brasil, por\u00e9m, essa realidade segue longe de ser universal. Milh\u00f5es de crian\u00e7as crescem sem acesso regular a livros, sem bibliotecas estruturadas e sem media\u00e7\u00e3o qualificada. Trata-se de um d\u00e9ficit silencioso, que compromete desde cedo a trajet\u00f3ria dos estudantes, revela uma fragilidade estrutural do nosso sistema de educa\u00e7\u00e3o e ajuda a explicar, em parte, os baixos n\u00edveis de letramento observados ao longo da vida escolar.<\/p>\n<p>Garantir o acesso ao livro desde a inf\u00e2ncia \u00e9, portanto, uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas n\u00e3o suficiente. Mais do que iniciativas isoladas, o pa\u00eds carece de uma articula\u00e7\u00e3o institucional capaz de dar escala, continuidade e coer\u00eancia a essas a\u00e7\u00f5es. A forma\u00e7\u00e3o de leitores n\u00e3o se sustenta apenas por esfor\u00e7os fragmentados, ainda que bem-intencionados. Exige estruturas capazes de integrar produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e media\u00e7\u00e3o de forma consistente. Programas surgem e desaparecem, pol\u00edticas n\u00e3o se consolidam e a forma\u00e7\u00e3o de leitores permanece dispersa, incapaz de produzir efeitos duradouros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o acesso ao livro infantil ainda reflete as desigualdades do pa\u00eds. Enquanto algumas crian\u00e7as crescem cercadas de livros, outras t\u00eam contato com eles apenas de forma epis\u00f3dica, quando o t\u00eam. Isso tende a se ampliar ao longo da vida escolar, produzindo trajet\u00f3rias cada vez mais desiguais.<\/p>\n<p>Nesse processo, a qualidade importa. Escrever para crian\u00e7as exige rigor, sensibilidade e dom\u00ednio da linguagem. Ilustrar, por sua vez, \u00e9 um ato de cria\u00e7\u00e3o que demanda repert\u00f3rio, t\u00e9cnica e intencionalidade. Texto e imagem n\u00e3o ocupam lugares hier\u00e1rquicos: constroem juntos a narrativa, ampliam significados e criam camadas de leitura. Valorizar a produ\u00e7\u00e3o de livros infantis \u00e9, portanto, reconhecer a literatura e a ilustra\u00e7\u00e3o como dimens\u00f5es indissoci\u00e1veis de uma mesma experi\u00eancia criativa e, no caso brasileiro, reconhecer tamb\u00e9m a for\u00e7a de uma produ\u00e7\u00e3o que alcan\u00e7ou alta qualidade e proje\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>O setor do livro infantil, que envolve autores, ilustradores, editoras, livrarias, escolas e bibliotecas, forma um ecossistema complexo, que exige coordena\u00e7\u00e3o e vis\u00e3o integrada para funcionar plenamente. No entanto, sem acesso consistente e media\u00e7\u00e3o qualificada, esse sistema n\u00e3o alcan\u00e7a plenamente quem mais precisa.<\/p>\n<p>A media\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, \u00e9 um ponto central. A forma\u00e7\u00e3o de leitores n\u00e3o acontece de forma espont\u00e2nea. Professores, bibliotec\u00e1rios e fam\u00edlias s\u00e3o respons\u00e1veis por aproximar a crian\u00e7a do livro, criar contextos de leitura e transformar o acesso em experi\u00eancia significativa. \u00c9 nesse encontro que a leitura deixa de ser possibilidade e se torna pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Por meio dos livros, a crian\u00e7a amplia seu repert\u00f3rio e entra em contato com diferentes realidades, experi\u00eancias e perspectivas. A leitura permite reconhecer o outro, compreender diferen\u00e7as e desenvolver empatia. Ao mesmo tempo, contribui para a constru\u00e7\u00e3o de um universo que sustenta o pensamento e a criatividade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 fundamental que as crian\u00e7as tenham acesso a livros que representem a diversidade de experi\u00eancias, territ\u00f3rios e identidades que comp\u00f5em a sociedade. A literatura infantil contribui para o desenvolvimento do senso de pertencimento e para o reconhecimento da pluralidade que caracteriza o mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Em um contexto de m\u00faltiplos est\u00edmulos e formas de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, o livro segue sendo uma ferramenta insubstitu\u00edvel. Mais do que disputar espa\u00e7o, a literatura infantil reafirma sua relev\u00e2ncia ao oferecer uma experi\u00eancia de leitura profunda, estruturada e formadora.<\/p>\n<p>Celebrar o Dia Mundial do Livro Infantil, em 2 de abril, data de nascimento de Hans Christian Andersen, n\u00e3o deve ser apenas marcar uma data. \u00c9 enfrentar uma escolha. Investir no acesso, na qualidade e na media\u00e7\u00e3o dos livros para crian\u00e7as exige n\u00e3o apenas recursos, mas capacidade de organiza\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o em escala, algo que o pa\u00eds ainda n\u00e3o conseguiu estruturar de forma consistente.<\/p>\n<p>Sociedades que n\u00e3o formam leitores desde a inf\u00e2ncia dificilmente formam cidad\u00e3os capazes de compreender, participar e transformar a realidade. E \u00e9 nas primeiras hist\u00f3rias, feitas de palavras e imagens, que come\u00e7am, silenciosamente, as possibilidades de futuro de um pa\u00eds.<\/p>\n<p>Sevani Matos \u00e9 presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro e<\/p>\n<p>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 Curador do Pr\u00eamio Jabuti<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sevani Matos e Hubert Alqu\u00e9res O encontro inicial com os livros \u00e9 um dos momentos mais decisivos na forma\u00e7\u00e3o de qualquer leitor, mas no Brasil ainda est\u00e1 longe de ser uma realidade universal. \u00c9 na inf\u00e2ncia que se descobrem hist\u00f3rias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. 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