CBL reúne lideranças do mercado editorial para debater dados, IA, grandes plataformas e o futuro do livro no Brasil

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18 de May de 2026

CBL reúne lideranças do mercado editorial para debater dados, IA, grandes plataformas e o futuro do livro no Brasil

Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos de 2026 contou com mais de 400 participantes para debater o setor editorial brasileiro

 

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) encerrou na última sexta-feira (15), a 5ª edição do Encontro de Editores, Livreiros, Distribuidores e Gráficos (EELDG), realizado no Casa Grande Hotel Resort & Spa, em Guarujá (SP). Ao longo dos dois últimos dias do evento, especialistas nacionais e internacionais debateram temas como o uso de dados e inteligência artificial no mercado editorial, o papel das grandes plataformas digitais e as estratégias de autores na construção de best-sellers.

O encontro reuniu mais de 400 participantes, 6 expositores, 19 patrocinadores e apoiadores, 2 salas simultâneas de programação, 20 mesas e palestras, 48 palestrantes e 2 convidados internacionais.

A programação de quarta-feira, 14, teve início com a mesa "Do achismo ao algoritmo: como dados estão definindo decisões editoriais", com Julia Barreto, editora dos selos Harlequin e Pitaya na HarperCollins Brasil, e Nana Vaz de Castro, diretora de aquisições da Sextante, sob mediação do jornalista Leonardo Neto, coordenador da programação do 5º EELDG. Julia Barreto destacou o papel dos dados como suporte à tomada de decisão sem abrir mão do instinto editorial. "Os dados são um porto seguro para nos deixar mais tranquilos nas nossas decisões, mas precisamos também acreditar", afirmou. Nana Vaz de Castro reforçou a importância de combinar análise quantitativa com sensibilidade de mercado, citando como exemplo uma conversa com uma criança entusiasmada com Minecraft que resultou na publicação de um livro ambientado naquele universo, fruto da escuta ativa dos leitores. "Temos que ter repertório, sensibilidade, mas temos que trabalhar com dados. A análise de dados vai ser necessária, é um grande diferencial", afirmou. Para Nana, acompanhar listas de mais vendidos no Brasil e no mundo é parte essencial do processo: "É uma alegria fazer esse trabalho, um grande privilégio nessa paixão de buscar as coisas, aprendendo com os dados sobre o que desperta a atenção das pessoas."

Na sequência, Arthur Bonamini, líder da categoria Livros no Mercado Livre, foi entrevistado pelos jornalistas Guilherme Sobota (PublishNews), Maria Fernanda Rodrigues (Estadão), Ruan Gabriel (O Globo) e Walter Porto (Folha de S.Paulo). A conversa abordou a relação da plataforma com editoras e livrarias brasileiras, incluindo o posicionamento da empresa sobre a Lei Cortez. "O Mercado Livre quer uma proposta que agregue valor junto com as editoras, temos um alcance social. Queremos, junto com as livrarias parceiras da plataforma, avançar no mercado", disse Bonamini. Ele apostou nas pré-vendas como ferramenta para impulsionar lançamentos. "É uma oportunidade, como a gente tem tentado fazer em pré-vendas, uma ferramenta que tem benefícios operacionais e importantes. É importante o movimento de valorização do livro. Nunca vi um setor tão colaborativo como o editorial. Conseguimos acelerar esses bons pontos desse segmento."

A mesa "Best-seller não acontece sozinho: o papel do autor na construção do sucesso de um livro" reuniu Michel Alcoforado, autor de Coisa de Rico, com mais de 160 mil exemplares vendidos , e Lulie Macedo, diretora de Marketing da Editora Todavia. Alcoforado detalhou as estratégias de comunicação e marketing mobilizadas para o lançamento, incluindo vídeos de pré-lançamento, ações junto a livrarias físicas e personalização dos envios para a imprensa. "A gente precisa criar valor para o livro como o leitor acredita. A criação está em cima de três elementos: a trajetória do autor, que é um ativo importante; a comunicação e divulgação, que ficou mais complexa e precisa ser trabalhada melhor; e a apresentação de uma narrativa para as pessoas", explicou. O autor, que se define antes de tudo como antropólogo, vê nas múltiplas plataformas digitais uma oportunidade diante da saturação do mercado: "A grande maravilha de ter muitos pontos de contato para entrar com o seu leitor é que não temos mais um caminho só. Não precisa fazer tudo em um canal só. Chegamos num ponto que não temos mais escolha, se alguém quiser viver de livro, vai ter que se render às novas estratégias."

Cinthya Müller, coordenadora da Comissão de Inovação e Tecnologia da CBL, e José Fernando Tavares, CEO e fundador da Booknando, apresentaram o Manual de Uso Ético e Responsável de Inteligência Artificial voltado ao mercado editorial brasileiro. "A ideia do manual surgiu ao percebermos que nossas reuniões convergiam para o mesmo tema e que as dúvidas eram sempre semelhantes e complementares. Esperamos que o guia sirva como uma bússola para os editores e que ajude a desmistificar o mito de que a IA 'cria', quando na verdade ela indexa o conteúdo existente na internet, entregando-o de forma organizada", explica Cinthya.  

Em seguida, Thad McIlroy, colaborador da Publishers Weekly e fundador do site The Future of Publishing, apresentou um panorama internacional sobre IA no setor. Com tom pragmático, McIlroy defendeu metas modestas e graduais para as editoras e ponderou que os perigos e os avanços da tecnologia coexistem: "A publicação não é uma indústria de alta tecnologia. Se movimenta de forma lenta. Essa mudança será gradual."

O segundo dia encerrou com painéis com a participação de Ricardo Perez, líder de negócios de livros na Amazon Brasil. Ele foi entrevistado pelo mesmo time de jornalistas e reafirmou o compromisso de longo prazo da empresa com o mercado nacional, presente desde 2012. Ao ser questionado sobre a dominância da plataforma, afirmou: "A gente é só um intermediário, temos a missão de ligar o autor com o leitor. O preço é uma questão para os não compradores de livros. Oferecer um preço mais justo ao consumidor é uma forma de atrair esse leitor.” Em relação à Lei Cortez, disse que “a Amazon se adequará a qualquer resolução que haja. É uma boa discussão e queremos participar dela, construir caminhos que façam a lei factível, trazendo o contexto socioeconômico brasileiro." Lais Villaboy, commerce manager do TikTok, e Victor Jun Kaneko Vitorelli, digital commerce manager do TikTok Shop, apresentaram dados sobre o impacto da plataforma no mercado do livro. O BookTok já acumula mais de 2 bilhões de visualizações em 120 dias, com reflexo direto nas prateleiras das livrarias físicas. A plataforma conta com 1 bilhão de usuários globalmente e 160 milhões de usuários ativos mensais no Brasil.

No último dia, 15 de maio, Mariana Bueno e Jacira Silva, coordenadoras de pesquisas da Nielsen BookData, apresentaram dados comparativos sobre o desempenho do setor editorial brasileiro frente a outros mercados. A programação contou ainda com a participação on-line de Shannon DeVito, diretora sênior de livros da Barnes & Noble, na mesa "Livraria: lugar de curadoria e pertencimento", mediada por Samuel Seibel, proprietário da Livraria da Vila.

Ao ser questionada por Samuel sobre os desafios do mercado estadunidense, Shannon abordou a convivência com as grandes plataformas digitais de venda. Para ela, no entanto, nenhuma experiência supera a de comprar livros em uma livraria física, onde o leitor tem a oportunidade de descobrir títulos, folhear obras e receber indicações em áreas diversas. "Quem procura uma livraria não está buscando o mesmo serviço prestado pelas plataformas, são negócios diferentes", afirmou. O diálogo também tocou nas dificuldades específicas do mercado brasileiro, como a venda direta de autores ao consumidor final, prática que pressiona as livrarias. Shannon ponderou que nos Estados Unidos esse fenômeno é menos problemático: autores independentes podem até vender por redes sociais, mas a qualidade das obras produzidas com o suporte editorial das editoras é muito superior. 

O encontro foi encerrado com o painel "Frente a frente com Livraria Leitura", em que Marcus Teles, CEO da Livraria Leitura, foi entrevistado pelo time de jornalistas convidados, que conduziram os demais painéis ao longo do evento. Ao ser questionado sobre as lojas online que praticam descontos competitivos e que hoje figuram como a segunda maior vendedora de livros do país, Marcus Teles disse: "Somos o primeiro vendedor em várias áreas, mas vender para ficar no prejuízo não vamos." O CEO afirmou que o objetivo da rede é expandir para cidades que ainda não possuem livrarias e declarou apoio à presença crescente das plataformas digitais.

Teles afirmou ainda que a rede não pratica descontos prejudiciais e pretende expandir para cidades sem livrarias, celebrando a concorrência digital como saudável. Destacou o crescimento do mercado, mais de 10% em vendas, e vê o livro digital como complemento ao físico. Sobre produtos como livros de colorir e álbuns de figurinhas, defendeu que tudo que atrai clientes às lojas é positivo. 

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