80 anos da CBL: trajetória que se renova para construir o futuro do livro no Brasil

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21 de setembro de 2026

80 anos da CBL: trajetória que se renova para construir o futuro do livro no Brasil

Por Sevani Matos

Completar 80 anos é mais do que celebrar uma trajetória. É reconhecer a capacidade de uma instituição de acompanhar as transformações do país, enfrentar diferentes desafios e renovar sua atuação sem perder de vista seus princípios. Ao chegar a oito décadas de existência, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) reafirma seu compromisso com o desenvolvimento do setor editorial e livreiro e com o fortalecimento do livro e da leitura como instrumentos de educação, cultura, conhecimento e cidadania.

Fundada em 1946, a CBL nasceu em um Brasil muito diferente do atual. De lá para cá, o país mudou profundamente, assim como os hábitos de leitura, os modelos de negócios, as tecnologias e as formas de produzir, distribuir e acessar livros. O próprio mercado editorial se transformou e passou a conviver com novos formatos, plataformas e possibilidades de circulação.

O Brasil mudou, o setor mudou e a CBL também mudou. É justamente essa capacidade de se renovar, sem perder de vista sua missão, que permitiu à entidade construir uma trajetória de oito décadas e permanecer relevante diante de cada novo cenário.

Representar o setor do livro, hoje, significa compreender sua diversidade, aproximar seus diferentes segmentos, produzir e disseminar conhecimento, defender políticas públicas e criar oportunidades para o desenvolvimento do mercado brasileiro. Significa também reconhecer que editoras, livrarias, distribuidoras, gráficas, autores, agentes literários, bibliotecas e todos os profissionais envolvidos na produção e na circulação do livro fazem parte de uma mesma cadeia, cujo fortalecimento depende da atuação conjunta.

Quando um desses segmentos avança, todo o setor se beneficia. Por isso, fortalecer o ecossistema do livro é uma responsabilidade que exige diálogo, articulação e construção coletiva.

Ao longo dessas oito décadas, a CBL ampliou sua atuação para responder às transformações do setor e também para ajudar a impulsioná-las. A gestão da Agência Brasileira do ISBN e, mais recentemente, da Agência Brasileira do ISNI, colocou a entidade no centro de um processo que vai muito além da representação institucional. Hoje, somos parte da estrutura técnica que contribui para a identificação, o reconhecimento e a proteção de autores, obras e criadores brasileiros. São serviços que conferem mais organização, segurança e visibilidade à produção editorial e intelectual do país.

Conhecer o setor também é uma forma de fortalecê-lo. Em um mercado em constante transformação, dados e pesquisas são fundamentais para compreender o comportamento dos leitores, identificar tendências, orientar decisões e contribuir para a formulação de políticas públicas. Por isso, estudos sobre o mercado editorial, a produção, as vendas e os hábitos de leitura ocupam um espaço estratégico na atuação da CBL.

Mas o papel da CBL não se limita às questões de mercado. A defesa do livro como instrumento de educação, cultura, ciência e cidadania está no centro de nossa atuação. Fortalecer o mercado do livro e ampliar o acesso à leitura não são agendas distintas. São partes de um mesmo compromisso.

Participar do debate sobre políticas públicas, contribuir para o aprimoramento dos programas de aquisição de livros e defender investimentos consistentes em leitura são compromissos que fazem parte da história da entidade e permanecem absolutamente atuais.

Precisamos avançar, especialmente, na construção e no fortalecimento de políticas de Estado para o livro e a leitura. Em um país de dimensões continentais e ainda marcado por desigualdades no acesso à educação e à cultura, precisamos de políticas que tenham continuidade, escala e capacidade de produzir resultados de longo prazo.

Formar leitores exige planejamento, investimento e articulação entre poder público e sociedade civil. Exige fortalecer bibliotecas, apoiar escolas e mediadores de leitura, ampliar o acesso ao livro e garantir que ele esteja cada vez mais presente na vida dos brasileiros.

Nesse caminho, o fortalecimento do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) é fundamental. Mais do que um conjunto de ações, precisamos consolidá-lo como uma política de Estado capaz de articular diferentes esferas do poder público e a sociedade civil em torno de objetivos permanentes para o livro e a leitura.

Não há projeto de desenvolvimento de um país que possa prescindir da formação de leitores. O livro contribui para ampliar repertórios, estimular o pensamento crítico, produzir conhecimento e fortalecer a cidadania. Garantir o acesso a ele é, portanto, investir no presente e no futuro do Brasil.

Outro campo que ganhou relevância nos últimos anos é a internacionalização do livro brasileiro. Levar nossos autores e nossa produção editorial para outros países significa ampliar mercados, gerar novas oportunidades para o setor e, ao mesmo tempo, fortalecer a presença da cultura brasileira no mundo.

A participação em feiras internacionais, missões comerciais, programas de tradução e outras iniciativas de promoção do livro brasileiro tem contribuído para aproximar autores e editoras nacionais de novos leitores e mercados. Internacionalizar o livro é também ampliar a presença do Brasil no mundo por meio de sua produção cultural e intelectual.

Também estamos diante de uma transformação tecnológica sem precedentes. A inteligência artificial já começa a modificar processos de criação, edição, produção e distribuição de conteúdo. Esse movimento exige atenção, diálogo e responsabilidade, mas também disposição para compreender as oportunidades e participar da construção dos caminhos que definirão essa nova etapa.

Temos de discutir seus impactos sobre o setor, especialmente em temas como direitos autorais, remuneração dos criadores, uso de conteúdos e proteção da propriedade intelectual. Ao mesmo tempo, precisamos compreender as possibilidades que essas novas ferramentas podem oferecer para o desenvolvimento do mercado e para a ampliação do acesso ao conhecimento.

Inovar não significa abandonar o que nos trouxe até aqui. Pelo contrário. Em um momento de excesso de informação e de consumo cada vez mais rápido de conteúdos, o livro mantém sua capacidade de formar leitores, ampliar repertórios, estimular o pensamento crítico e produzir conhecimento. Independentemente do formato em que chega ao leitor, seu valor permanece.

É por isso que celebrar 80 anos também significa reafirmar princípios. A CBL tem o compromisso de valorizar o livro, a leitura e todos os profissionais que participam de sua produção e circulação; defender a liberdade de expressão e a diversidade da produção editorial; fortalecer livrarias e bibliotecas; ampliar o acesso ao livro; e contribuir para a construção de políticas públicas capazes de fazer da leitura uma prática cada vez mais presente na vida dos brasileiros.

Os próximos anos trarão novos desafios. O setor precisará lidar com as transformações tecnológicas, novos modelos de negócio, mudanças nos hábitos dos leitores, sustentabilidade econômica, direitos autorais e internacionalização. Ao mesmo tempo, teremos de enfrentar questões que permanecem atuais, como a formação de leitores, o acesso ao livro e o fortalecimento das políticas públicas.

A experiência de oito décadas nos ensina que nenhum desses desafios será enfrentado de forma isolada. O diálogo entre os diferentes segmentos do setor, a aproximação com o poder público e a construção de parcerias com instituições públicas e privadas são fundamentais para encontrar soluções, transformar demandas em avanços concretos e construir um ambiente mais favorável ao desenvolvimento do livro no Brasil.

Chegar aos 80 anos, portanto, é olhar para a história com orgulho, mas também com responsabilidade. A CBL construiu uma trajetória sólida porque soube acompanhar seu tempo, adaptar-se às mudanças e, ao mesmo tempo, preservar sua missão.

É esse equilíbrio que queremos manter: valorizar o que foi construído, enfrentar os desafios do presente e preparar o setor para o futuro. Oitenta anos depois, a missão permanece, mas os caminhos se renovam.

A CBL entra em sua próxima etapa com a experiência de quem conhece sua história e com a disposição de construir o que ainda está por vir. Porque o futuro do livro no Brasil também se constrói agora, com mais leitores, mais acesso, mais diversidade, mais inovação e um setor cada vez mais preparado para os desafios do futuro.

Sevani Matos é presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL)

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